O que Oscar Schmidt, apelidado de “Mão Santa”, tem em comum com uma formiga? O que o gigante do basquete brasileiro compartilha com uma das menores criaturas da natureza? Aqui está a resposta: os dois se exercitam para um determinado resultado. Oscar se notabilizou por treinar de maneira implacável para ser um exímio atleta, enquanto a formiga trabalha arduamente para se alimentar. A Bíblia usa a formiga para ensinar sobre trabalho:
“Vá ter com a formiga, ó preguiçoso!
Observe os caminhos dela e seja sábio.
Não tendo ela chefe,
nem oficial, nem comandante,
no verão prepara a sua comida,
no tempo da colheita
ajunta o seu mantimento”
(Pv 6:6-8 – NAA)
O exemplo do atleta e, em especial, a sabedoria bíblica sobre o trabalho são as bases para a primeira reflexão devocional do ano em nosso blog: empenho, esforço e exercício para a piedade. Uma pessoa piedosa é alguém que busca viver como Deus ordena. Isso fica claro na orientação de Paulo ao seu discípulo, Timóteo: “Exercite-se, pessoalmente, na piedade” (1Tm 4.7 – NAA). Porém, no aquecimento deste exercício para a piedade, precisamos nos lembrar de algo: Os cristãos não vivem de forma piedosa para ser salvos; eles vivem de forma piedosa porque foram salvos.
Uma vida piedosa é sempre resultado da salvação, nunca a forma de alcançá-la. Quando as pessoas se concentram em seu crescimento espiritual, muitas vezes são tentadas a pensar que o Criador gostará mais delas se estiverem se comportando melhor. Talvez você já tenha ouvido algo como: ‘Deus ajuda aqueles que se ajudam’. Embora essa frase soe terrivelmente religiosa, na verdade ela é uma mentira terrível. Esse ditado promete que o Pai o amará se você somente melhorar seu comportamento. No entanto, o evangelho nos diz algo diferente.
Ele é tão bom que não ignora nenhum pecado. O pecado é a nossa rebelião contra Deus e nos rebelamos porque, como todas as pessoas, nascemos pecadores (Rm 3.23; Sl 51.5). Poderíamos pensar em nosso problema assim: O pecado é a doença com a qual todos nascemos, e o sintoma é que nos rebelamos contra o Senhor. Muitas vezes, fazemos, pensamos, sentimos, dizemos e desejamos o que queremos em vez do que o Eterno quer. Somos totalmente responsáveis por nossos pecados e o evangelho diz que todas as pessoas são tão pecadoras – tão doentes – que é impossível para nós nos limparmos o suficiente para ele. Não podemos nos curar de nossa doença. Podemos parecer bonzinhos na frente de nossos amigos e familiares, talvez até na frente de nossos espelhos. Mas enquanto estivermos espiritualmente enfermos, seremos pecadores diante de nosso Deus.
Mas o evangelho não para por aí – seria uma péssima notícia se parasse. As boas novas de Jesus são realmente boas, porque dizem que Deus ajuda aqueles que não podem ajudar a si mesmos. Ele cura aqueles que não podem se curar. O Pai fez isso enviando seu filho Jesus para viver a vida que deveríamos ter vivido e morrer a morte na cruz que merecíamos.
Após sua morte, Jesus foi ressuscitado, para que aquele que confiar nele para a salvação e se converter de seus pecados seja perdoado e receba a vida eterna. Por isso devemos responder a ele, agindo piedosamente: “Ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele” (Fp 2.12,13 – NVI).
A graça divina nos treina (Tt 2.11-12). Qualquer boa obra que fazemos mostra a boa obra do Senhor em nós, por isso confiamos com gratidão na sua força, não na nossa, dando a ele todo o louvor por nossa piedade. O mundo diz, ‘Deus ajuda aqueles que se ajudam!’ O evangelho diz, ‘Deus ajuda aqueles que não conseguem se ajudar’.
Portanto, a mensagem não é: ‘Pratique estes princípios cristãos e você será uma pessoa melhor’. A esperança do cristão não é que a prática leva à perfeição, mas que Jesus leva à perfeição. Quando confiamos em Jesus, ele nos declara inocentes de todos os nossos pecados.
Você acha que tudo isso parece bom demais para ser verdade? Algumas pessoas não precisam ser lembradas de que não podem merecer o amor de Jesus. Elas sabem que são pecadoras, mas pensam que são tão pecadoras que Deus nunca as salvaria. Mas aqui está o problema com esse tipo de pensamento: tal pessoa ainda presume que ele nos salva por causa de nós. No entanto, a Bíblia diz que o amor de Deus pelo homem não se baseia em nós. Em vez disso, tal amor é baseado em sua própria escolha em nos amar (Dt 7.7-9; Ef 2.4-5). O evangelho nos garante que seu amor por nós está assegurado por causa do que Jesus fez, não por causa do que fazemos.
Os perfeccionistas costumam medir seu relacionamento com Jesus pelo quão obedientes eles têm sido em suas ações. Os negligentes muitas vezes se sentem inúteis diante de Deus porque nunca param de olhar para suas falhas e acham que Ele também as enxerga assim.
Mas quando mantemos nossos olhos em Jesus, nos concentramos na pessoa que nos torna aceitáveis diante do Pai. Não temos mais que temer a rejeição de Deus – e essa verdade deve nos encorajar a crescer em piedade.
O esforço dos atletas revela que não há crescimento sem a dor que resulta do exercício. Mas, ao contrário de muitas estrelas do esporte, não nos exercitamos para alcançarmos medalhas e prêmios; nosso empenho é conhecer mais a Deus e nos deleitarmos nele, desde agora e para sempre. Isso faz o treinamento valer a pena! Pois, como ensinou J.C. Ryle, o Criador nos colocou na terra “com o objetivo de treinar para a eternidade, exercitando na piedade”.[1]
Em 12 de dezembro de 1722, Jonathan Edwards registrou uma de suas firmes resoluções que é bastante oportuna na conclusão deste devocional: Resolvi que me perguntarei ao final de cada dia, semana, mês e ano, como e onde eu poderia ter agido melhor. Que isso nos inspire neste início de ano, com nosso entendimento renovado pelo Evangelho, sabendo que todos vamos nos esforçar e nos empenhar como alunos, professores, tutores e diretores de Halls, a treinar para a piedade: agindo para a glória de Deus Pai, aprendendo com o Mestre e ajustando nossas vidas, sob a direção do Espírito Santo.
[1] J. C. Ryle, Thoughts for Young Men (Carlisle, PA: Banner of Truth, 2015), p. 43.

João Costa
Juntamente com sua esposa Mariana, serve na Igreja Cristã Nova Vida da Tijuca (RJ). É Mestre em Estudos Teológicos pelo Reformed Theological Seminary e cursou História da Doutrina Cristã no Regent College. Atua como editor, tradutor literário e é embaixador do Gordon-Conwell Theological Seminary no Brasil, onde também é professor adjunto de Introdução aos Estudos Teológicos. Coopera com a equipe de coordenação acadêmica do Christian Halls e é diretor/tutor do Hall Nova Vida (RJ).