fbpx

A tradição intelectual cristã e o ensino superior cristão (Parte 3)

DAVID S. DOCKERY

DAVID S. DOCKERY

13 Julho, 2020

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter

PARTE III – A CONDIÇÃO DO ENSINO SUPERIOR CRISTÃO

A tradição intelectual cristã serve como um recurso valioso para o ensino superior cristão, auxiliando a faculdade e os estudantes a compreenderem a forma como os cristãos, ao longo dos anos, têm lido a Bíblia, formulado a doutrina, provido educação e envolvido a cultura. O apóstolo Paulo, escrevendo à igreja em Tessalônica, incentivou os seguidores de Cristo para que “permaneçam firmes e apeguem-se às tradições que lhes foram ensinadas” (2Ts 2.15).
 
 

A tradição intelectual cristã

Onde quer que a fé cristã seja encontrada, há uma íntima associação com a palavra escrita de Deus, por meio de livros, ensino e aprendizado. O estudo e a interpretação do texto bíblico tornaram-se naturais para os membros da comunidade cristã primitiva, uma prática herdada do antigo judaísmo. A tradição intelectual cristã possui raízes na interpretação da Santa Escritura.
 
Desde os primórdios da história cristã, os cristãos têm se baseado na Bíblia de diversas maneiras. Essa rica herança tem moldado a tradição cristã tanto em práticas individuais quanto coletivas. A fim de recuperar esse recurso valioso para a educação superior cristã, devemos buscar aprender com os intérpretes da Escritura, abrangendo teólogos, filósofos, educadores, bem como outros líderes e estudiosos cristãos.
 
Os docentes cristãos podem aprender a refletir profundamente sobre as coisas de Deus com os representantes dessa tradição que vieram antes de nós e em cujos passos deveríamos agora trilhar. Temos muito a aprender com homens como Justino Mártir, Irineu, Clemente de Alexandria, Agostinho e muitos outros. À medida que aprendemos o melhor dessa tradição, veremos o fortalecimento de nossa fé e vivenciaremos uma renovação de nossos firmes compromissos quanto à natureza divina e a autoridade da palavra escrita de Deus, à divindade e humanidade de Jesus Cristo, à confissão sincera sobre a Santa Trindade, à singularidade da mensagem do evangelho e ao trabalho capacitador do Espírito Santo, à salvação pela graça por meio da fé, à igreja global, bem como à esperança do reino vindouro e à sacralidade da vida e da família.
 
Cristãos reflexivos trabalharão para desenvolver um modelo de ortodoxia dinâmica em diálogos com Niceia, Calcedônia, Agostinho, Bernardo, Lutero, Calvino, Wesley, os pietistas e os influentes líderes cristãos globais do século XXI, visando o resgate da grande tradição intelectual cristã e a edificação sobre ela.
 
A grande tradição do pensamento cristão não apenas auxilia na formação de nossa compreensão teológica e bíblica, mas também propicia um vasto recurso para a filosofia, a arte, a música, a literatura, o teatro, a arquitetura, a lei, o pensamento político e social, além de outras formas de envolvimento acadêmico e cultural. A minha esperança é que, conforme lidamos com os inúmeros desafios enfrentados pelo ensino superior cristão hoje, a grande tradição do pensamento cristão possa fornecer recursos e exemplos valiosos para encorajar a nossa fé e moldar propósitos educacionais, eclesiásticos e culturais significativos, mesmo enquanto crescemos em nossa apreciação e compromisso ao pensamento cristão, para a glória de Deus.
 
 

Fundações confessionais

A reconexão com a grande tradição confessional da igreja auxiliará os educadores cristãos a evitar o reducionismo fundamentalista, por um lado, e o revisionismo liberal, do outro. O reducionismo fundamentalista falha em compreender que há prioridades ou diferenças na fé cristã. O fundamentalismo, em geral, fracassa em priorizar doutrinas de modo consistente com as ênfases da Escritura. Por seu turno, o revisionismo liberal, em sua tentativa de traduzir a fé cristã para conectar com a cultura, com frequência, tem ferido a fé cristã, revisando-a em lugar de traduzi-la.
 
Enquanto nos aprofundamos na reflexão sobre esses temas importantes, consideremos brevemente os compromissos chave presentes no Credo de Niceia, uma declaração confessional compartilhada por todas as tradições cristãs. O Credo Niceno (325/381 AD) foi elaborado para refutar a reivindicação de que Jesus seria a mais elevada criação de Deus e, portanto, diferente em essência do Pai. Quando pleiteamos hoje por uma educação superior cristocêntrica, estamos, com efeito, confessando que Jesus Cristo, que era eternamente a segunda pessoa da Trindade, partilhando de todos os atributos divinos, tornou-se homem. Portanto, pensar na centralidade de Cristo apenas em termos de piedade pessoal ou de ativismo resultante da obediência à alguns aspectos do ensinamento de Jesus, embora importante, será inadequado.
 
Um futuro saudável para o ensino superior cristão deve incluir o retorno ao passado, com a plena certeza de que ao apontarmos para Jesus, buscamos o homem Jesus integral e afirmamos que Ele é Deus. Esse é o grande mistério da piedade, Deus manifestado em corpo (1Tm 3.16). É necessário que Cristo seja tanto Deus quanto homem, pois somente como homem Ele poderia ser o Redentor da humanidade; apenas como um homem sem pecado, Cristo estaria apto a morrer pelos outros; e, unicamente como Deus, a Sua vida, o Seu ministério e a Sua morte redentora poderiam ter um valor infinito e cumprir as exigências de Deus para livrar os seres humanos da morte.
 
Qualquer tentativa de conceber um ensino superior cristão fiel para os dias futuros, que não seja firmemente alicerçado na grande tradição confessional, provavelmente, resultará em um modelo educacional sem uma bússola. A única forma de oposição às presunções seculares, capaz de moldar os inúmeros setores da educação superior atual, é confessar que o Cristo exaltado, que falou ao mundo por meio de Sua poderosa palava, é o providencial sustentador de toda a vida (Cl 1.15-17; Hb 1.2).
 
Ao procurarmos inserir a fé cristã no processo de ensino e aprendizagem, no esforço de instituir uma educação superior cristocêntrica distinta, nossa estratégia deve incluir trazer essas verdades sobre Jesus Cristo a fim de sustentar as grandes ideias da história, bem como as suposições culturais de nosso contexto pós-cristão, à luz da verdade eterna de Deus. Nós, portanto, almejamos que o trabalho do ensino superior, nos dias por vir, se desenvolva por intermédio das lentes da tradição nicena, que reconhece não apenas a Santa Trindade como também o transcendente, criador, sustentador e autorrevelado Deus Trino, que fez os seres humanos à Sua imagem.
 
Ao prever um futuro abençoado para o trabalho compartilhado do ensino superior cristão, não estou, de forma alguma, desconsiderando os desafios multifacetados e as mudanças diversas que nos cercam, sejam financeiras, tecnológicas, denominacionais, educacionais, legais e culturais. Nesses três artigos, busquei oferecer um foco triplo sobre os compromissos fundamentais e centrais necessários para prever e sustentar um futuro fiel ao ensino superior cristão, onde a fé cristã instruirá e moldará o nosso ensino, aprendizado, conhecimento e serviço. Enquanto fazemos isso, oro não apenas por convicções confessionais renovadas, mas também por uma ortopraxia genuína e um modelo próspero de educação superior que se destaque diante do mundo que nos observa.
Open chat
Olá! Podemos te ajudar?